quinta-feira, 4 de setembro de 2014

'Legião estrangeira' pega em armas no conflito na Ucrânia

Combatente espanhol luta ao lado dos rebeldes / Crédito: Reuters
Rafa Munoz Perez, um espanhol servindo com os rebeldes em Donetsk

Franceses, espanhóis, suecos ou sérvios, os estrangeiros que lutam por ambos os lados no conflito sangrento que acontece no leste da Ucrânia vêm de toda a Europa e trazem uma lista enorme e confusa de motivações para isso.
Os 'não-mercenários' entre eles são motivados por causas que remetem às guerras na antiga Iugoslávia ou ainda a Civil Espanhola, nos anos 30.
A Rússia é 'o elefante na sala', superando qualquer outra nacionalidade estrangeira presente no leste da Ucrânia - embora seja cada vez mais difícil separar os russos que lutam como voluntários dos soldados oficiais, supostamente enviados em missões secretas.
Os rebeldes ucranianos pró-Rússia gostam de exaltar seus combatentes voluntários de fora, apresentando-os como os mais novos "Brigadistas Internacionais" lutando contra o "fascismo". Enquanto isso, começa a acontecer um debate em Kiev sobre a possibilidade de se criar uma "legião estrangeira" da Ucrânia.
Apresentamos aqui alguns dos combatentes estrangeiros por país de origem, em um fenômeno que, de alguma forma, lembra o dos jovens muçulmanos da Grã-Bretanha e de outras partes da Europa que viajam para o Oriente Médio para lutar em suas guerras e defender suas crenças.

Rússia

Não é nenhum segredo que cidadãos russos ocuparam as principais posições de liderança entre os rebeldes na Ucrânia. E o mais famoso deles é Igor 'Strelkov' Girkin, que supostamente detinha a patente de coronel no Serviço de Segurança Russo até o ano passado.
Também há fortes evidências indicando que os outros combatentes "normais" da Rússia invadiram o leste da Ucrânia para se juntar aos rebeldes. Mas a definição deles como "voluntários" lutando por uma causa comum em Luhansk e Donetsk ou "soldados mercenários" ainda é algo que não está claro.
Um dos líderes dos rebeldes, Alexander Zakharchenko, declarou publicamente que cerca de 3 mil ou 4 mil "voluntários" russos lutaram com os rebeldes desde o começo do conflito, em abril.
"Há também vários soldados russos que preferem passar o período de férias conosco, irmãos que estão lutando pela liberdade deles em vez de estarem relaxando na praia", disse ele na última quinta-feira.
Soldado checheno Ruslan Arsayev
Checheno Ruslan Arsayev luta ao lado do governo ucraniano porque não quer 'se curvar' para Putin
As evidências têm mostrado que soldados russos estão envolvidos no conflito - dez paraquedistas militares foram capturados em território ucraniano e há evidências indiretas na Rússia de mortes ou desaparecimentos de militares do país.
Acredita-se que os chechenos – da República da Chechênia e os da diáspora anti-Rússia que vivem no exílio – estejam envolvidos em ambos os lados do conflito, mas há uma predominância entre eles dos que lutam pelos rebeldes.
Um homem armado que se apresentou como checheno e chamado Ruslan Arsayev disse ao site de notícias Mashable, em uma entrevista, que estava lutando pela Ucrânia porque não vai "se curvar para Putin".

França

Há franceses lutando pelos dois lados, segundo informações divulgadas pela rádio pública francesa no início do mês. Cerca de 20 cidadãos do país estão em território ucraniano para tomar parte no conflito.
Quatro deles, incluindo dois ex-soldados, foram a Donetsk para lutar com os rebeldes. Eles até chegaram a ser filmados por um jornal russo posando com armas nas mãos.
De acordo com o jornal francês Le Monde, os quatro seriam fundadores de um movimento ultranacionalista chamado "União Continental". Na visão deles, a Rússia representa "o último suspiro" contra a globalização liberal – a qual eles consideram "responsável pelo declínio dos valores nacionais e pela perda de soberania da França".
O principal papel desses franceses seria, aparentemente, providenciar treinamento de combate para soldados recrutados de países da Europa Ocidental.
Do outro lado, Gaston Besson tem lutado pelo governo ucraniano como um membro do Batalhão voluntário de Azov, uma unidade conhecida por suas associações de extrema direita.
Ainda assim, com 47 anos, ele se descreve como um "revolucionário de esquerda", de acordo com a mídia francesa. Besson teria sido um paraquedista militar no passado, tendo lutado em vários conflitos anteriores, da Croácia à Colômbia.
Ele também é conhecido por sua habilidade em recrutar outros estrangeiros. "Todos os dias eu recebo dezenas de pedidos de pessoas que querem se juntar a nós, principalmente de lugares como Finlândia, Noruega e Suécia", disse, em junho, para o Eurasianet.

Espanha

Para dois espanhóis de esquerda que se juntaram aos rebeldes pró-Rússia, o conflito no leste da Ucrânia é a chance de retribuir o que eles consideram como um "favor histórico".
Angel Davilla-Rivas disse à agência de notícias Reuters que ele foi ao território ucraniano junto com seu companheiro Rafa Muñoz Pérez para lutar com os rebeldes em um reconhecimento pelo apoio da União Soviética ao lado republicano na Guerra Civil Espanhola.
Rafa Muñoz, de 27 anos, é de Madri e é membro da ala jovem do movimento político Esquerda Unida desde 2010, de acordo com o jornal espanhol El País. O amigo dele tem 22 anos e é de Múrcia (leste da Espanha) – ele faz parte da ala jovem do Partido Comunista Espanhol.
"Eu sou filho único e meus pais e minha família sofrem por eu estar me arriscando assim. Mas… eu não consigo dormir tranquilo sabendo o que está acontecendo aqui", disse Davilla-Rivas, que tem tatuagens dos líderes soviéticos Lenin e Stalin no corpo.
Os dois estão do lado dos rebeldes, mas também há relatos de espanhóis apoiando o governo ucraniano, de acordo com um artigo no jornal ucraniano Kyiv Post.

Sérvia

Acredita-se que dezenas de sérvios estejam lutando com os rebeldes na Ucrânia, muitos deles levados pelo senso étnico e nacionalista de solidariedade com a região de cristãos ortodoxos russos – e também pela posição contrária à Otan, que tem o governo ucraniano como aliado.
Ainda assim, o especialista em segurança de Belgrado, Zoran Dragisic, disse a uma televisão alemã que os combatentes sérvios estariam lutando primeiramente como mercenários e podem ser encontrados dos dois lados do conflito.
"Os jovens são 'doutrinados' para a guerra, alguns são praticamente crianças", disse Dragisic.
Enquanto isso, o governo sérvio tenta afastar seus cidadãos do conflito com uma lei que pune a participação deles em guerras estrangeiras.

Suécia

Sueco luta com o governo ucraniano / Crédito: Mikael Skillt
Ao lado do governo ucraniano, sueco diz que está lutando pela 'sobrevivência dos brancos'
Em uma entrevista à correspondente da BBC Dina Newman, um franco-atirador sueco com visões de extrema-direita, Mikael Skillt, disse que estava lutando pelo governo ucraniano porque ele acredita na "sobrevivência dos brancos". Como o francês Gaston Besson, ele é um membro do batalhão de Azov.
"Seria idiota se eu dissesse que eu não quero ver a sobrevivência dos brancos", disse ele. "Depois da Segunda Guerra, os vencedores dela escreveram sua história. Eles decidiram que é sempre algo ruim dizer 'sou branco e tenho orgulho disso'."

Polônia

Já houve relatos recentes de que poloneses estariam participando do conflito na Ucrânia, mas o governo em Varsóvia rapidamente negou que seus cidadãos estariam lutando como 'mercenários' junto com o governo ucraniano. As autoridades polonesas ainda deram o aviso de que qualquer polonês que fosse à Ucrânia para lutar poderia ser preso na volta, de acordo com a agência alemã Deutsche Welle.
Mas, por enquanto, segundo a mídia alternativa ucraniana Euromaidan Press, já há registro de um cidadão polonês nascido na Ucrânia morto em uma emboscada dos rebeldes no início de agosto, enquanto servia o batalhão de Dnipro como voluntário – Leonid Smolinski era o nome dele.
Pelo menos um polonês também já foi visto do lado dos rebeldes. Em um discurso em Donetsk, transmitido pelo site polonês radical xportal, Bartosz Becker se descreveu como um representante dos "poloneses livres que são contra as bases terroristas da Otan na Polônia".

Alemanha

A alemã Margarita Zeidler é uma antiga enfermeira que se mudou para a Ucrânia em 2002 por razões religiosas depois de ter se convertido para a Igreja Russa Ortodoxa, de acordo com uma entrevista dela para um jornal russo.
Decepcionada pelos acontecimentos em Kiev durante a revolução de Maidan durante o inverno, ela se mudou primeiro para a Crimeia, depois para a região de Donetsk – depois que um de seus amigos foi morto lá em maio, ela conta. Ela se tornou uma "fonte de informação oficial" dos rebeldes em Sloviansk quando as forças do governo cercaram a região.
Atualmente, ela se diz jornalista e conta que mantém sempre uma metralhadora "ao seu alcance" por segurança. Falando russo em um vídeo do Youtube de 11 de agosto, Margarita diz que não poderia ficar sentada assistindo a "fascistas ucranianos matarem civis".

Estados Unidos

Apesar de os rebeldes afirmarem o contrário, há pouca evidência do envolvimento de voluntários americanos no conflito da Ucrânia. A exceção foi o americano-ucraniano chamado Mark Gregory Paslawsky, que já tinha cidadania ucraniana.
Paslawsky foi morto lutando do lado do governo ucraniano na cidade de Ilovaisk. Em uma entrevista para a Vice News, ele tinha dito que queria ajudar a acabar com a corrupção na Ucrânia e afirmou: "a elite política precisa ser destruída aqui".
Embora não haja evidência concreta, a mídia russa sugere que haja cidadãos americanos lutando com os rebeldes.

Itália

Francesco F, de 53 anos, juntou-se ao batalhão de Azov para "combater o bom combate contra a Rússia", segundo um artigo publicado pelo jornal italiano Panorama, em junho.
Ele já fazia negócios na Ucrânia dois anos antes de o conflito violento começar e disse que "encontrou sua casa com os nacionalistas ucranianos" nas barricadas de Maidan. Ainda segundo o jornal, Francesco também tem um passado na extrema direita na Itália.

Outros países

Há registros de cidadãos de outras nacionalidades que também estão envolvidos no conflito, mas em números menores. Geógia, Bielorrússia, Estônia, Letônia, Lituânia, Finlândia, Noruega, Canadá, Croácia, Eslovênia e República Tcheca teriam voluntários envolvidos no lado do governo ucraniano.
O líder rebelde Alexander Zakharchenko disse, no último dia 17 de agosto, que os voluntários estrangeiros do lado deles incluíam também turcos e romenos.

Fonte: BBC

terça-feira, 2 de setembro de 2014

'Obter informações secretas é essencial'- Entrevista Erich Schmidt-Eenboom

Especialista destaca papel dos serviços de inteligência alemãesmas ressalta 'dependência' em relação aos americanos.


Depois de passar meses no papel de vítima da espionagem americana, a Alemanha inverteu o jogo. Revelações de que Berlim espionou os EUA e a Turquia comprovaram uma guerra secreta para se obter informações entre países amigos e a preocupação da inteligência alemã de enterrar o rótulo de um serviço de 'segunda classe'. 

Em entrevista ao Estado, o especialista alemão em espionagem e serviço secreto Erich Schmidt-Eenboom, diretor de pesquisa do Instituto para Políticas da Paz (Baviera), afirma que é normal os serviços secretos dos países não confiarem uns nos outros, mas recrutar um funcionário de outro serviço, como a CIA fez com o agente duplo do BND (serviço secreto alemão) é sem precedentes. 

Autor de vários livros sobre o tema, o especialista explica que o BND sempre teve um tratamento desigual com as agências americanas no pós-guerra, fornecendo tudo a elas e recebendo muito pouco em troca, mas isso tem mudado com os investimentos do governo em inteligência nos últimos anos. A seguir, a íntegra da entrevista:

Com relação ao caso do funcionário da inteligência alemã pego fazendo espionagem para os EUA, o sr. disse recentemente que nunca houve um caso tão sério como esse. Por que ele é mais sério e o que o diferencia dos outros escândalos de espionagem entre EUA e Alemanha? 

Desde os tempos da parceria com a CIA sob a Organização Gehlen (entre julho de 1949 e março de 1956), encontramos muitos exemplos de que o serviço americano não confiava em seus parceiros alemães e os espionavam. Arquivos, agora conhecidos no Arquivo Nacional nos EUA, nos mostram que esse tipo de espionagem, na verdade, nunca parou. Nesses documentos, o mais recente deles é do começo dos anos 90 e trata-se de uma lista de empregados do BND com suas posições e funções. Mas a espionagem contra o BND e seu predecessor durou por mais de cinco décadas feita apenas por meios eletrônicos. Recrutar alguém de dentro da inteligência alemã tem sido um tabu por décadas, que agora foi quebrado com o recrutamento de um funcionário que não tinha uma alta posição, mas ainda assim, acesso a documentos secretos e muito importantes.

A chanceler Angela Merkel expulsou o chefe da CIA em Berlim. O que achou da reação do governo? 

Expulsar o representante da CIA em Berlin foi a mais forte resposta diplomática possível. Mais até do que chamar o embaixador para protestar em nosso Departamento de Estado (fizemos isso duas vezes este mês). Mas essa é apenas uma medida diplomática. Teremos um novo chefe de estação em algumas semanas e temo que ele conduzirá as mesmas operações de inteligência que seu predecessor - com um pouco mais de precaução, claro, e talvez com um número menor de espiões. Na cena da inteligência, é de Angela Merkel a decisão de cortar a cooperação entre o BND e os serviços americanos em muitos campos importantes - com exceção no da "guerra internacional contra o terrorismo" e as parcerias com o Afeganistão. Mas em semanas voltaremos a operar como sempre fizemos. 

Mas depois de reclamar com os EUA por ter sido alvo de sua espionagem e até mesmo patrocinar, com o Brasil, uma resolução na ONU para proteção na internet, o governo alemão foi acusado de ter espionado o próprio EUA e a Turquia. O governo foi acusado de hipocrisia. O senhor concorda? 

Claro. Angela Merkel e outros líderes políticos não são hipócritas apenas no seu trabalho de inteligência. Eles negam ter qualquer conhecimento sobre a espionagem praticada pela NSA contra a Alemanha quando Edward Snowden abriu seus arquivos. Mas isso era muito bem conhecido pelo governo alemão desde os dias do primeiro chanceler Konrad Adenauer. Aliados como EUA, Grã-Bretanha e França espionaram a política, a economia e os segredos militares da Alemanha. 

E qual o interesse da espionagem na Turquia? 

Espionar a Turquia desde 1976 - apesar da boa cooperação no campo da Inteligência de Sinal (Sigint) contra o inimigo comum, a União Soviética - é uma banalidade. Sempre houve muitas boas razões para dar uma olhada na Turquia: o grupo de 'terror' curdo PKK com muitos apoiadores na Alemanha e responsáveis pelo tráfico de drogas do Líbano para a Europa; a influência das organizações turcas na grande comunidade turca na Alemanha; a ambição turca de se juntar à União Europeia; o fato de que desde o início dos anos 90 Ancara ter influência sobre os Estados islâmicos da Ásia Central na competição com a Alemanha por objetivos econômicos nessa região; e o apoio turco aos jihadistas combatentes na Síria e no Iraque; esses são apenas alguns dos principais pontos de interesse.

E a reação de Merkel a essa denúncia?

A reação de Merkel ao 'escândalo de espionagem contra a Turquia' podemos até considerar sua mais nova hipocrisia. Ela disse a todos que os EUA, França e Grã-Bretanha são os amigos reais que não estão na mira do BND. Isso não é verdade. Com relação às prioridades do BND no fim dos anos 80, classificando em seis níveis - de "o mais alto interesse" até "sem interesse" - a política da Grã-Bretanha e da França dentro da União Europeia tinha prioridade 2, "alto interesse", assim como os planos políticos dos EUA para a Alemanha, para Berlim Oriental, União Europeia e a economia (principalmente o fornecimento de bens importantes como o urânio para a Alemanha). Assim também como a decisão política do Brasil sobre suas matérias primas e a venda de urânio para a Alemanha e o poder militar brasileiro, que tinham o mesmo nível de interesse, 2. 

Qual a importância da espionagem hoje para a Alemanha? 

Fornecer informações secretas para o governo de um país com a importância política como a Alemanha tornou-se mais essencial após a reunificação do país. Esse papel tem crescido lentamente nas questões de política externa, incluindo a cada vez maior participação em operações militares, dos Bálcãs ao Afeganistão. No início dos anos 90, o BND sofreu um corte no orçamento, assim como de pessoal, mas mais para o fim daquela década, e após o 11 de Setembro, os tomadores de decisão em Berlim fizeram um grande investimento para fortalecer seu serviço de inteligência. A maior parte do dinheiro foi para os satélites de reconhecimento e para os equipamentos das grandes estações de Sigint dentro da Alemanha. 

O governo alemão diz que as gravações de Hillary e Kerry foram acidentais. Mas parte dos críticos diz que o BND teve a intenção de demonstrar seu poder de espionar os americanos. O senhor acredita? 

Não acredito nisso, de que foram pegos acidentalmente, porque Hillary Clinton e John Kerry nunca usariam um sistema de comunicação desprotegido. Interceptar suas comunicações significa que a capacidade de Sigint do BND está concentrada nos sistemas secretos de linhas e comunicação americanos e significa que mesmo as conversas criptografadas podem ser decodificadas. O BND faz tudo para negar que tenha tido sucesso ao espionar políticos americanos, temendo que esse caso possa levar a contramedidas americanas no campo da criptologia. 

Outras análises sugerem que há hoje uma preocupação em tornar o BND mais forte no pós-guerra, e que a Alemanha não é um mero "país vassalo" nesse campo? 

O tratamento da Alemanha como um "país vassalo" tem razões históricas. A Alemanha teve sua soberania plena após a reunificação. Mas mesmo depois disso, a CIA - assim como a NSA e a Agência de Inteligência de Defesa - prefere uma "parceria", na qual o BND deve fornecer tudo e receber apenas uma pequena parte do serviço, em retorno. Em geral, tivemos o mesmo cenário nos dias de Guerra Fria: o BND é muito bom em Sigint, acumula uma vastidão de informações valiosas de parceiros de toda a parte do mundo (incluindo China), mas não é muito eficiente em inteligência humana. O fortalecimento Humint (inteligência humana) foi anunciado pelo presidente do BND, Gerhard Schindler, que disse que "sem risco, sem diversão", mas isso é um longo caminho. O secretário (do Interior) Thomas de Mazière também anunciou uma forte contrainteligência contra os serviços dos EUA. Ele outras autoridades também falaram em uma contraespionagem nunca feita antes: tentar infiltrar nos serviços americanos espiões gerenciados pelo BND. Por muitas rações isso é totalmente irreal: há muitos amigos dos serviços secretos americanos dentro do BND e eles alertariam a CIA, DIA ou FBI. A contrainteligência americana é muito forte, nenhum serviço alemão poderia recrutar um espião nela. Um tipo de ação como essa poderia prejudicar tanto as relações entre BND e a CIA que os americanos poderiam acabar com qualquer cooperação em terceiros países, o que é essencial para o BND, não para a CIA.

Em geral, as pessoas têm muito interesse em assuntos ligados à espionagem, há muita produção literária e cinematográfica sobre o tema. Por que há esse interesse? 

No campo da ficção, livros e filmes, podemos observar um senso comum global de que a espionagem como um jogo político de poder permite que muitas histórias interessantes sejam contadas. Mas na área da não ficção, há um choque de culturas resultante de diferentes razões históricas. Nos EUA, França e Grã-Bretanha, os serviços de inteligência são vistos como as organizações que prestaram uma contribuição importante para derrubar o Terceiro Reich na Alemanha de Hitler. Dentro da Alemanha, porém, temos dois fardos históricos que ainda criam uma atmosfera negativa para as atividades do serviço de inteligência: a cruel Gestapo (polícia secreta nazista) dentro e fora da Alemanha durante a 2.ª Guerra e o papel dos serviços de inteligência no Holocausto, por um lado, e a repressão praticada pelo Ministério da Segurança de Estado na Alemanha Oriental que durou até 1989, por outro.

Fonte: Estadão